sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Bem, outro conto bobo...


A geografia do corpo dela era algo magnífico de se observar naquela manhã. Os volumes sob o lençol, banhados pelo dourado do primeiro sol, as sombras arredondadas que lembravam as colinas amarelas de feno de sua infância. Até o cheiro de verde molhado que vinha do quintal incorporava-se à cena bucólica que o corpo dela evocava. Seus pés, brincalhões, escapavam de debaixo das cobertas, como lebres selvagens que vêm espiar o mundo após a chuva.

Por um átimo ele tem o impulso de agarrar a colina formada por suas nádegas, mas com isso ela seria apenas uma mulher, e não mais o cenário dos verões de sua infância, passados no sítio do avô. Decide, então, não se mover e percorrer com o olhar, o menino dentro dele excitado em cavalgar pelos prados e as colinas como um dom Quixote, flechar seus inimigos como Robin Hood ou apenas navegar Mississipi abaixo, Tom Sawyer e um imaginário Huck Finn.

A ondulação da respiração dela, suave ressonar, era o vento nos campos de trigo. "Mar dourado no meio do campo", como seu avô, sorriso desdentado, gostava de comentar, no fim das tardes. Era um mundo de Oz, onde ele via a magia brilhar ao sol. Tudo aquilo apenas nos cinco minutos em que a luz do sol matinal conseguia se esgueirar entre os prédios até a janela de seu apartamento. Cinco minutos, e sua amante anônima de uma grande festa de álcool e drogas em um fim de semana havia se tornado o sítio Flor de Maio.

"Que sorriso lindo", o sítio disse, se mexendo. "Esse sorriso é todo pra mim?"

Bom dia, flor de maio.

Ela sorri, adocicada pelo aposto usado. E se levanta, agora totalmente mulher, beleza nua em direção do banheiro.

E uma lágrima de fim de férias cai no travesseiro.



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Haha... quando comecei a escrever, notei que iniciava com "A geografia...". Então ofereço pra ThaiS [=

TM

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